...Às vezes dá-me p`a ler outras pra escrever, às vezes dá-me p`ouvir outras pra cantar, às vezes dá-me p`a rir outras p`a chorar... Eis que apenas "eu" e os "outros" vivemos no mesmo mundo, não assim tão longe...

Mostrar mensagens com a etiqueta eu nos outros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eu nos outros. Mostrar todas as mensagens

05/10/2011

...aqui...


Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história. Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui.

martha medeiros

01/10/2011

...Outubro...

água de madeiros - foto de telmo abreu


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia


27/09/2011

...Sou eu...


Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
àlvaro de campos

19/09/2011

...enquanto doi...



Ultimamente parece que meu coração tem pequenas plantinhas com raízes profundas plantadas nele. E elas estão sendo arrancadas uma a uma, pouquíssimas permanecem inalteradas e nem faço ideia de por quanto tempo. Cheguei aqui com uma bagagem carregada de entulhos que acumulei durante toda minha vida, algumas coisas úteis, outras nem tanto. Trouxe uma parte do meu comodismo, meus defeitos jogados no fundo da bagagem e meu sorriso por cima de tudo; um pouco como disfarce, um pouco como verdade.

E agora não sei até que ponto esse sorriso cobre todo o resto, porque a mala está muito remexida e muita coisa foi arrancada deixando uma desordem no que estava perto. Foi meio que um efeito dominó. E o fato aqui não é tristeza ou felicidade. O fato é o incômodo que isso causa e a forma como meus defeitos, hoje, estão mais à mostra que nuncaantes.

É o início do processo de transformação, de mudança de caráter. E, por mais bonitas que essas palavras aparentem ser, elas não são... Não enquanto dói...

alma in blog

17/08/2011

... como o sal ...



Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos, ferindo-se de ternura. Dói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés. Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava, como o sal ocupa o mar, como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas. Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio, tua virtude, tua carência... Eu, que longe de ti sou fraco. Eu, que já fui água, seiva vegetal, sou agora gota trémula, raiz exposta... Traz de novo, meu amor, a transparência da água. Dá ocupação à minha ternura vadia, mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito, e espanta na gruta funda de mim, os animais que atormentam o meu sono...

Mia Couto in,
"saudade"

01/08/2011

... Desencontro ...


Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.


Jorge de Sena,
in 'Post-Scriptum'

17/03/2011

...saberás?...


Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.

Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.

Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.
verónica h.

22/02/2011

11/10/2010

...à luz do silêncio...

quero-te a ti ... " tan tan tan "

Não quero memórias passadas
Águas levadas
Em rios já mortos

Não quero histórias contadas
De reis e de fadas
Em fins inglórios

Não quero horas marcadas
Nem prendas caras
Em dias de festa

Não quero formas erradas
Nem beijos nem facas
Na ferida aberta

Não quero amor ao minuto
Nem ódio eterno
Não quero o tempo indefinido e diminuto
Entre o Outono e o Inverno

Não quero abraços encolhidos
Nem sonhos perdidos
De alguém que acordou

Não quero choros escolhidos
Em mares perdidos
Que alguém nem tocou

Não quero a estreia da mentira
Nem o final da verdade
Não quero o sindroma da vida
Que embala a saudade

Não quero que me queiram nunca
Se um dia puderem não me querer
Não quero sentir qualquer morte
Sem poder morrer

Não quero
Tudo o que me quer assim
Como apontamento numa agenda

Quero a liberdade dos sentidos
Sem segundos contidos
Sem limite que me prenda

Faça-se silêncio
Entre a inércia e o acto!!!
Que eu tenho com o tempo um pacto
Onde, nem um, nem outro pode existir

Faça-se silêncio
Ouçam-me, sentir!!!

08/10/2010

... dias de chuva ...


Sempre gostei dos dias de chuva que aparecem inesperadamente no meio do Verão. Aquela sensação de frio que nos confirma que havemos sempre de precisar do conforto de um abraço. Até porque os "Verões" acabam sempre.
Gosto do cheiro da terra molhada, da forma como a água se torna parte integrante da realidade à nossa volta, e nos obriga a olhar de maneira diferente para as coisas de todos os dias.
Gosto do som do eco da água que me chega. Identifico-me com ela, porque a imagino perdida, desencontrada de si, sem perceber o que lhe compete mais fazer aqui para além de se abandonar a esta queda inevitável e contínua...
Também eu me sinto perdida em dias assim. À espera de compreender melhor porque é que também eu me abandono à queda.

30/03/2010

...fingir...


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

(José Luís Peixoto)

28/03/2010

...preciso ser-te...

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Identidade
Mia Couto

27/03/2010

...Esperarei por ti...

Horas, horas sem fim,
graves, profundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.

Até que um passáro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade

24/03/2010

...porque não me falas?...


Gosto quando falas de ti...e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos tranqüilos.

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão como o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só, te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros, mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido, e descortino teu destino, como um caminho certo,
cuja primeira curva foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti ... porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrolava inútil como um novelo
que nos cai da mão...

J.G.de Araújo Jorge
In Quatro Damas

22/03/2010

...vagueio por aí...


Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.

E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.

Na verdade, porém, não se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferença. O que se passa - como, de resto, em qualquer confronto de opiniões - é o mesmo que sucede com certos pratos culinários: são conhecidos por nomes diferentes mas, na prática, o resultado não varia.
Haruki Murakami,
in 'Em Busca do Carneiro Selvagem'

18/03/2010

14/03/2010

...Não entendo...


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

10/03/2010

...Que me ofereces?...


Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia….”

Friedrich Nietzsche

09/03/2010

...Porque...


Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andersen
in
“No Tempo Dividido e Mar Novo"

03/03/2010

...o dever para com nós própios...




E... perante isto, sigo, aprendo algo que ainda não sabes,  que deixar-se influenciar é deixar que a nossa alma se abafe, e a dos que amamos se esvaneça... Alguma coisa aqui falta, se não a palavra, o sentimento... a água que rega a flor... ou mesmo a influência do amor...
malu


Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moal, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.

Oscar Wilde,
in "O Retrato de Dorian Gray"