...Às vezes dá-me p`a ler outras pra escrever, às vezes dá-me p`ouvir outras pra cantar, às vezes dá-me p`a rir outras p`a chorar... Eis que apenas "eu" e os "outros" vivemos no mesmo mundo, não assim tão longe...

27/09/2011

...Sou eu...


Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
àlvaro de campos

25/09/2011

... livrai-me ...


Deus de vez em quando me tira a poesia.
Olho para uma pedra e vejo uma pedra
disse (adélia prado)
mas também há quem diga,
que Deus, não nos tira as coisas... livra-nos delas...

21/09/2011

...sobre isso...


"Sabe, sobre esse seu ‘amor’ que você está dizendo. Eu posso ouvir você dizer milhares de vezes, mas não significa que uma junção de palavras vai me fazer sentir como era antes, tudo outra vez. Seria até bom se você ficasse quieto e deixasse a reputação do amor intacta. No futuro ouvirei de alguém que esse alguém me ama e quero ter um conceito melhor sobre isso.”

Gabito Nunes

19/09/2011

...enquanto doi...



Ultimamente parece que meu coração tem pequenas plantinhas com raízes profundas plantadas nele. E elas estão sendo arrancadas uma a uma, pouquíssimas permanecem inalteradas e nem faço ideia de por quanto tempo. Cheguei aqui com uma bagagem carregada de entulhos que acumulei durante toda minha vida, algumas coisas úteis, outras nem tanto. Trouxe uma parte do meu comodismo, meus defeitos jogados no fundo da bagagem e meu sorriso por cima de tudo; um pouco como disfarce, um pouco como verdade.

E agora não sei até que ponto esse sorriso cobre todo o resto, porque a mala está muito remexida e muita coisa foi arrancada deixando uma desordem no que estava perto. Foi meio que um efeito dominó. E o fato aqui não é tristeza ou felicidade. O fato é o incômodo que isso causa e a forma como meus defeitos, hoje, estão mais à mostra que nuncaantes.

É o início do processo de transformação, de mudança de caráter. E, por mais bonitas que essas palavras aparentem ser, elas não são... Não enquanto dói...

alma in blog

18/09/2011

...vazio...


Penso em você apesar de não sentir sua falta e muito menos sua presença.
Penso em você porque sinto um vazio, que eu não sei do quê.
 
 
Caio Fernando de Abreu

16/09/2011

...Amor?...


Começa pedindo um amor verdadeiro.
Pra sempre.
Desiludido, deseja apenas um grande amor.
Verdadeiro ou não.
Não se satisfaz com o amor que tem...
Quer algo que nem sabe mais o que é.
Valoriza o amor de quem não merece.
E no final, cansado da procura, aceita qualquer amor.
Amor?
Ah coração...
Você nunca sabe o que quer.

alene mattos in,
letras tortas

15/09/2011

...em quem...


Em quem pensar, agora, se não em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste a manhã da minha noite…

Nuno Júdice
(Pedro, lembrando Inês)

14/09/2011

...fica...


(...)E eu não tive tempo de dizer,
que quando a gente precisa que alguém fique,
a gente constrói qualquer coisa, até um castelo(...)


Caio Fernando Abreu, in:
O Inventário Do Irremediável

...saudadear...


Separação inexiste, se há força de amor e fé.
Sentir saudades é trazer mais perto ainda,
tudo que a gente pensa perdido.
"Saudadear", dizia ele...

Guimarães Rosa, in:
Primeiras Estórias

...insuportável...



Permito, que nessas horas vagas,
onde os desejos tem mais tempo,
que eu seja seu pensamento a te roubar vida afora.

E quando a falta for insuportável e vier em minha busca,
será a minha vez de ver, se sua forma ainda preenche
aquela mesma lacuna, (talvez), vazia.

Patty Vicensotti

13/09/2011

...preciso de ti...


Preciso de ti. Por nenhuma razão em especial. Apenas por tudo, apenas por nada. Preciso desse sorriso, que se te acende no rosto e me ilumina os dias. Preciso de me encontrar no brilho dos teus olhos faroleiros que me fazem rumar ao cais onde te escondes. Preciso de ti… de deitar a cabeça no teu peito e ouvir o tic tac de um coração que trabalha com a precisão de um relógio suíço. Preciso de te ouvir gemer baixinho o meu nome em doces ecos surdos. Quero adormecer no teu colo e repousar em ti este permanente cansaço. Preciso de ti… porque a minha alma já não me pertence, abandonou-me e habita descaradamente na tua. Preciso que abandones todos os medos e dúvidas e que te deites ao meu lado, que me abraces de forma carinhosa e protectora. E amanhã, quando eu acordar… preciso que estejas exactamente no mesmo sítio.

sandrasofiabarbosa in,
aspalavrasquenuncatedirei

08/09/2011

...perco o siso...


Mas o que mais me impede inda louvar-te,
É que quando te vejo perco a língua,
E quando não te vejo perco o siso.



Luís Vaz de Camões

06/09/2011

...contam...



Morro de saudade.
Que coisa maluca a distância, a memória.
Como um filtro, um filtro seletivo, vão ficando
apenas as coisas e as pessoas que realmente contam.

Caio Fernando Abreu
in: Cartas - A Guilherme de Almeida Prado

02/09/2011

...sabendo...



Digo-te adeus.
Outra vez.
Sabendo que, tal como antes, não vais reparar.

pedro guerra

17/08/2011

... como o sal ...



Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos, ferindo-se de ternura. Dói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés. Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava, como o sal ocupa o mar, como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas. Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio, tua virtude, tua carência... Eu, que longe de ti sou fraco. Eu, que já fui água, seiva vegetal, sou agora gota trémula, raiz exposta... Traz de novo, meu amor, a transparência da água. Dá ocupação à minha ternura vadia, mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito, e espanta na gruta funda de mim, os animais que atormentam o meu sono...

Mia Couto in,
"saudade"

01/08/2011

... Desencontro ...


Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.


Jorge de Sena,
in 'Post-Scriptum'

25/07/2011

...raizes...


"O amor, (...), como tu sabes é feito de muitos sentimentos diferentes. Alguém escreveu, creio que até fui eu - que era uma bela flor com raízes diversas. Ora quando uma dessas raízes é a estima absoluta pode ele ao fim de longos anos secar pelas outras raízes mas permanecer vivo por essa."

Eça de Queirós

10/07/2011

... o limite ....


O amor por nós mesmos, que só a nós diz respeito, sente-se satis­feito quando as nossas verdadeiras necessidades ficam satisfeitas; mas o amor-próprio - que se pretende comparar com ele - nun­ca se sente satisfeito nem o poderia estar, porque esse sentimen­to, que nos leva a preferirmo-nos aos outros, também exige que os outros nos prefiram a eles próprios; ora isso é impossível. Eis co­mo as paixões suaves e afectuosas têm origem no amor por si pró­prio, e como as paixões de ódio e de ira provêm do amor-próprio. Assim, o que torna o homem essencialmente bom é o facto de ter poucas necessidades e de pouco se comparar com os outros; o que o torna essencialmente mau é ter muitas necessidades e preo­cupar-se muito com a opinião. Sobre este princípio, é fácil ver co­mo se podem dirigir - para o bem ou para o mal - todas as pai­xões das crianças e dos homens. É verdade que, como não podem viver sempre sós, dificilmente poderão viver sempre bons: e esta dificuldade aumentará, necessariamente, com o alargamento das suas relações; e é nisso, sobretudo, que os perigos da sociedade nos tornam a arte e os cuidados mais indispensáveis para prevenir­ - no coração humano - a depravação originada pelas suas novas ne­cessidades.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Emílio'

06/07/2011

... Só ...

Só, sinto-me tão só
Entre paredes vagas sem vida

Só, sinto-me tão só
E não encontro qualquer saída

Não sou ninguém que o tempo reclame
Que o vento chame ou a lua chore

Por isso estou só, sempre tão só
Longe de casa e de quem me ame

Nunca, nunca por nunca
Temi o mar que nos rastreia
Mas esqueci, sim, sei que esqueci
De escorar tantos castelos d’ areia

Por isso estou só, sempre tão só
Não sou ninguém que o vento reclame

Por isso estou só, sempre tão só
Longe de casa e de quem me ame


14/06/2011

... pouco ...


Não desejo encontrar alguém que me complete.
É pouco.
Mas que me transborde, até o final cansar e ser só início.


Carpinejar

19/05/2011

...existimos para pensar...


Deixem-me falar do prazer de pensar, sem que isso vos perturbe!

Confundimos o complexo com o complicado, esquecendo que não querer ver o complexo é na verdade complicar.

Complicamos quando não queremos ver o mais profundo, esquecendo que dando conteúdo a essa forma estamos a “mediocratizar” o nosso pensamento. Ignoramos o que é mais profundo pensando que o prazer está em não pensar. Ignoramos que a descoberta e criação do complexo está na matriz da simplicidade e porque esta é a raiz da própria existência e existimos para pensar.

Ignorando o pensamento ignoramos a existência e consequentemente somatizamos a parte de nós que não existe…sofremos. Entender o paradoxo é (será?) dar um sentido à vida, é residir na metáfora da própria existência e de repente tudo se torna aparentemente mais simples.

Deixem-me dizer que o prazer de pensar, o prazer de agir e prazer de transformar somatizam o bem-estar!
Manuel Parrinha
in, “Pertenço logo existo!”

05/04/2011

... melhor ?! ...



Podes perder tudo na vida... e regenerares-te... Menos um filho... isto NÂO!!!

Dizem que as perdas trazem sempre ganhos a acompanhar... que a dor nos faz crescer...
Dizem os que nunca perderam... só esses se atreveriam a falar de avanços, de ganho, de evolução na caminhada que te é destinada, com a perda de um ser em ti... isso NÃO!!!

É um marco mas não bom, uma viragem, mas do avesso, uma sentença imutável... uma pena irrevogável.
Para onde quer que vás depois disto, já não és tu... és tu, com e sem esse ser que te transformaria num ser maior sim, mas que se foi, e te estagna no mais pequeno grânulo de ti, inanimado, empobrecido ...

Em que é que essa dor te pode transformar numa pessoa melhor?
Sabes?! .... Claro que não... não podes!!!
E só julga que sabe, ou que assim o é, quem nunca perdeu!

Se um dia a pessoa que eu era há dias atrás voltar aqui... fujam todos, duvidem todos...
Essa, é quem morreu!!!

25/03/2011

...amo...


Você devia ter feito alguma coisa para me ter,ou me deter.


É fim de tarde. E, você sabe,

Eu te amava."


fernanda yong

24/03/2011

... o dilema ...

Se alguém precisa de uma nova oportunidade, dá-lhe esta oportunidade. Não permita que ninguém, fique com o coração triste, desesperado, sem esperança.

sei das angústias de uma mulher que está considerando a possibilidade de um aborto. Elas precisam de compaixão e não de condenação, não importando o que decidirem fazer. E se tomam a valente decisão de preservar a vida que está dentro delas, o sofrimento não acabou, está apenas começando. Elas precisam de ajuda para trazer esses filhos ao mundo e tentar juntar os cacos de sua própria história...
...
mulher que está lutando no vale da decisão, por favor, compreenda que Deus a ama apesar de seus erros. Ele tem um plano especial para a sua vida e para a vida desse nenê que está dentro de você. Levante a cabeça, acredite e Deus não a desapontará.
pr. alejandro bullón

... esquecer não é de quem ama ...



Nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos.

Lya Luft

23/03/2011

...sorrindo...



Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor.



tati b.

22/03/2011

...apego-te...


Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Não me limito, não sou cruel comigo!
Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer.


C. Lispector

17/03/2011

...saberás?...


Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.

Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.

Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.
verónica h.

...isto...



Não importa quanto tempo passe, não importa onde eu esteja, não importa onde esteja você, abra os olhos pra dentro e ouça: o meu coração estará dizendo esta mesma prece de amor para o seu. Amor incondicional, exatamente como neste instante. Não importa o quanto a gente mude, o quanto a distância aparente nos afastar, isto que sinto por você, eu sei, não muda nunca mais.

ana jácome

14/03/2011

... indiferença tua ...


Não que tenha me faltado companhia, (que falta muito) mas em algum momento o abraço termina porque as pessoas têm as suas vidas (e tu não me queres na tua vida e isso doi tanto). E ainda, o barulho das cidades têm me incomodado tanto quanto este silêncio denso. Então eu fico sem saber pra onde ir. E fico tão sonolenta e encolhida no meu canto até que alguém venha me abraçar novamente. E às vezes esse socorro demora tanto por causa da minha necessidade sempre tão urgente de tudo. De paz. Por não querer sufocar ninguém, fico aqui, sufocada.
Só estou te dizendo estas coisas porque acho estranho você não ter a menor curiosidade em saber como tenho me sentido. Depois de tudo.
Porque não existe um segundo sequer em que eu não pense e queira saber e deseje que você esteja bem. Só isso.   

marla de queiroz

12/03/2011

...lado bom...

...não te percas meu amor...

(...) tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto aquele abraço é o lado bom da vida. Da vida que te desemprega mesmo depois de tantas noites em claro e de tantos Beirutes indigestos. Da vida que te abre uma porta que você jura ser a certa, mas quando resolve entrar descobre duas crianças brincando na sala e uma mulher esperando no quarto. Da vida que te confunde tanto que você quer se afastar de tudo para entendê-la de fora. Da vida que te humilha tanto que você quer se ajoelhar numa igreja. Da vida que te emociona tanto que você não quer pensar. Da vida que te engana.

Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perde- lo.

Tati Bernardi

08/03/2011

... querer é poder ...

tu podes ser...
cruel é o não quereres...

tu tens amor pra dar, pra receber
pior é o ignorares...

tu podes ser a luz a alegria
ter a luz a alegria
podes ser tudo, ter tudo
tão triste é preferires não ser nada
não ter nada
tu podes ser a vida e ter a vida desse amor
e preferes matá-lo em ti e em mim...

não digas que não podes
não digas que não queres

o que tu queres, o que eu quero não existe
não existe amor sem dor
e se já conhecemos a dor
e se temos o amor
podemos escolher

e tendo alguém que te ama de corpo e alma
não entendo porque o não queres
como podes?

02/03/2011

...Por ti ... meu anjo...

Percorri todos os maus caminhos hoje... como tantos hojes me acontece... Passei por ti, e nem um olhar me prendeu... Desisti... finalmente o que tanto querias aconteceu... desisti... não de ti, não de nós... mas de mim!!!

Uma força estranhamente bruta me chamava pra si cruelmente... Andei... andei... de olhos baços.... andei... parei na falacha, depois no farol da baía... e o mar parecia tão mansinho lá em baixo, tão cheio de paz, que me atraía... Mais um cigarro numa convulsão de dor... e fugi desesperada.... acelerei de novo a fundo, e só parei noutro farol mais a norte... ali tão perto de onde nasci, onde sempre soube que queria morrer...

Vi a tua expressão, tão decepcionada comigo, e o pranto tomou conta de mim... Vi a expressão do meu filho, tão meigo e doce comigo, que caí... Virei as costas ao mar... ao abismo que me gritava para me entregar...!



A noite já me tinha avisado... Estava tão perto do quase que, sem saber, na madrugada, gritei... não sei se de dor, se de liberdade... Não queria a morte, nunca quis, mas tornou-se inevitável... Tal como se tornou insuportável permanecer.

Sonhei que o mar me abraçava fortemente... e agitei-me....gelei momentaneamente. Mas não doía, não mais chorava...não mais te chamava... Mas... o meu amor pequenino ouviu o meu coração... e ali estava ele debruçado sobre mim ... Eu soluçava, e o meu anjo Rafael acordou para me abraçar...Voltei quando o ouvi:

- Mãe, mãe ... Não chores mais... eu estou aqui!!!

Obrigado meu anjo por existires... por mais uma vez me fazeres continuar... Sei que não podes dizer-me que vai correr tudo bem... mas também sei que és o único amor, que nunca me vai abandonar...

22/02/2011

...preciso da tua voz...


sabes como preciso da tua voz?
é como o chilrrear de um passarinho
faz-me sentir a primavera em nós
(...)
o teu calar, teu não cantar
tira-me o ninho
deixa-me sem chão
sem céu para te amar


da malu
para o cazé

...pousado em mim...

A borboleta ,depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa.

Machado de Assis

12/02/2011

... voltei ...



Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento

Rogério Martins Simões, 
in "voltei"

31/01/2011

...verdade...



"O amor pela verdade pode temporariamente custar caro a quem o exercita. Mas a verdade acaba por triunfar da mentira. A política da mentira está condenada à derrota final. É à política da verdade que o futuro pertence."

Álvaro Cunhal,
in O Partido Com Paredes de Vidro

30/01/2011

... será ? ...


O actor acaba por não deixar de pensar na impressão causada pela sua pessoa e no efeito cénico total, até por ocasião da mais profunda mágoa, por exemplo, mesmo no enterro do seu filho; chorará ante o seu próprio desgosto e respectivas exteriorizações como sendo o seu próprio espectador. O hipócrita, que desempenha sempre um mesmo papel, acaba por deixar de ser hipócrita; por exemplo, sacerdotes, que, enquanto homens novos, são habitualmente, de modo consciente ou inconsciente, hipócritas, por fim tornam-se naturais e são, então, realmente, sem qualquer simulação, mesmo sacerdotes; ou se o pai não consegue lá chegar, então, talvez, o filho, que se serve do avanço do pai e herda a sua habituação. Se uma pessoa quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, consegue-o pois acaba por se lhe tornar difícil ser qualquer outra coisa. A profissão de quase toda a gente, até do artista, começa com hipocrisia, com uma imitação a partir do exterior, com um copiar de aquilo que é eficaz. Aquele, que traz sempre a máscara das expressões fisionómicas amistosas, tem de acabar por adquirir poder sobre as disposições anímicas benévolas, sem as quais não é possível forçar a expressão da afabilidade - e, finalmente, por seu turno adquirem estas poder sobre ele: ele é amistoso.
Friedrich Nietzsche,
in 'Humano, Demasiado Humano'

... a asa certa ...


Qualquer coisa tem duas asas: uma que nos permite a levemos connosco, a outra que tal intenção não nos facilita. Se o teu irmão tem mau feitio, não o chames a ti levando a mão à asa que se manifesta de modo errado. Por aí, é-te impossível levar a bom termo o teu propósito. Toma-o antes pela asa boa, pela mão que se não recusa à tua mão - e se te lembrares que ele é teu irmão, que foi amamentado contigo, logo verás que o podes chamar a ti.

Epicteto,
in 'Manual'

28/01/2011

... sendo...


"A gente pode até se vingar de toda a chatice,
a grossura,
a crueldade e angústia,

sendo feliz."
Lya Luft

25/01/2011

...descobre as diferenças...


Há uma grande diferença entre amar e estar apegado: o amor nos dá aquele sentimento de liberdade, enquanto que o apego nos aprisiona e pensamos que as pessoas devem agir da forma que queremos. O amor é livre! Quando estou apegado a alguém ou a alguma realidade, eu faço do outro meu escravo.
Pe Fabio de Melo

23/01/2011

...não sei...

será que adoecerias de me sentir doente?

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,

Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;

E apesar disso, crê! nunca pensei num lar

Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.

E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.

Nem depois de acordar te procurei no leito

Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo

A tua cor sadia, o teu sorriso terno...

Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso

Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio

Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.

Eu não demoro a olhar na curva do teu seio

Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...

Eu não sei que mudança a minha alma pressente...

Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,

Que adoecia talvez de te saber doente.



Camilo Pessanha, in 'Clepsidra' 

...nada...


"quem nada conhece, nada ama."

06/01/2011

...fala da mulher sozinha...


Já estou farta de estar só, acompanhada de nada, já estou louca de ser rua, tão corrida tão pisada já estou prenha de amizade, tão barriga de saudade. Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão, e nela entrelaçar o olhar de uma canção, chegar ao cume, ao cimo, ao alto, mais longe e mais além, mas a saber que sou alguém. Na cidade sou loucura, sou begónia sou ciúme, e eu que sonhava ser rua, caminho atalho lonjura, não tenho assento na festa, sou a migalha que resta.
paco bandeira

08/12/2010

...quanto medo...


Quanto terror latente

nesse mar gelado

que desde sempre

levamos na alma.


António Castañeda

24/11/2010

... espera ...


Não importa ao tempo o minuto que passa,
mas o minuto que vem


machado de assis

entender pelo sentir


Uma verdade só o é quando sentida - não quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.

Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não - e de que serve reconhecê-lo ou não? - como centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.

Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discussão não nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de nós, a profundeza das nossas sombras profundas.
 
 
Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias é necessário que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando isso que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro quantas vezes entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem ainda na exterioridade de nós a plausibilidade do que em nós já não é plausível. Então nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos serviríamos e já não serve. Surpresos olhamos quem fomos porque já nos não reconhecemos.

Atónitos perguntamos como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, ao incrível da cilada que nós próprios nos armámos, mesmo quando foi a vida que a armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e real quando abre em evidência na profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está?
Vergílio Ferreira, in
'Invocação ao Meu Corpo'