Cansei de medir distâncias, agora só peso saudades!
...Às vezes dá-me p`a ler outras pra escrever, às vezes dá-me p`ouvir outras pra cantar, às vezes dá-me p`a rir outras p`a chorar... Eis que apenas "eu" e os "outros" vivemos no mesmo mundo, não assim tão longe...
03/09/2011
02/09/2011
17/08/2011
... como o sal ...
Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos, ferindo-se de ternura. Dói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés. Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava, como o sal ocupa o mar, como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas. Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio, tua virtude, tua carência... Eu, que longe de ti sou fraco. Eu, que já fui água, seiva vegetal, sou agora gota trémula, raiz exposta... Traz de novo, meu amor, a transparência da água. Dá ocupação à minha ternura vadia, mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito, e espanta na gruta funda de mim, os animais que atormentam o meu sono...
Mia Couto in,
"saudade"
01/08/2011
... Desencontro ...
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.
E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,
de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.
Jorge de Sena,
in 'Post-Scriptum'
25/07/2011
...raizes...
"O amor, (...), como tu sabes é feito de muitos sentimentos diferentes. Alguém escreveu, creio que até fui eu - que era uma bela flor com raízes diversas. Ora quando uma dessas raízes é a estima absoluta pode ele ao fim de longos anos secar pelas outras raízes mas permanecer vivo por essa."
Eça de Queirós
10/07/2011
... o limite ....
O amor por nós mesmos, que só a nós diz respeito, sente-se satisfeito quando as nossas verdadeiras necessidades ficam satisfeitas; mas o amor-próprio - que se pretende comparar com ele - nunca se sente satisfeito nem o poderia estar, porque esse sentimento, que nos leva a preferirmo-nos aos outros, também exige que os outros nos prefiram a eles próprios; ora isso é impossível. Eis como as paixões suaves e afectuosas têm origem no amor por si próprio, e como as paixões de ódio e de ira provêm do amor-próprio. Assim, o que torna o homem essencialmente bom é o facto de ter poucas necessidades e de pouco se comparar com os outros; o que o torna essencialmente mau é ter muitas necessidades e preocupar-se muito com a opinião. Sobre este princípio, é fácil ver como se podem dirigir - para o bem ou para o mal - todas as paixões das crianças e dos homens. É verdade que, como não podem viver sempre sós, dificilmente poderão viver sempre bons: e esta dificuldade aumentará, necessariamente, com o alargamento das suas relações; e é nisso, sobretudo, que os perigos da sociedade nos tornam a arte e os cuidados mais indispensáveis para prevenir - no coração humano - a depravação originada pelas suas novas necessidades.
Jean-Jacques Rousseau, in 'Emílio'
06/07/2011
... Só ...
Só, sinto-me tão só
Entre paredes vagas sem vida
Só, sinto-me tão só
E não encontro qualquer saída
Não sou ninguém que o tempo reclame
Que o vento chame ou a lua chore
Por isso estou só, sempre tão só
Longe de casa e de quem me ame
Nunca, nunca por nunca
Temi o mar que nos rastreia
Mas esqueci, sim, sei que esqueci
De escorar tantos castelos d’ areia
Por isso estou só, sempre tão só
Não sou ninguém que o vento reclame
Por isso estou só, sempre tão só
Longe de casa e de quem me ame
14/06/2011
... pouco ...
Não desejo encontrar alguém que me complete.
É pouco.
Mas que me transborde, até o final cansar e ser só início.
Carpinejar
19/05/2011
...existimos para pensar...
Deixem-me falar do prazer de pensar, sem que isso vos perturbe!
Confundimos o complexo com o complicado, esquecendo que não querer ver o complexo é na verdade complicar.
Complicamos quando não queremos ver o mais profundo, esquecendo que dando conteúdo a essa forma estamos a “mediocratizar” o nosso pensamento. Ignoramos o que é mais profundo pensando que o prazer está em não pensar. Ignoramos que a descoberta e criação do complexo está na matriz da simplicidade e porque esta é a raiz da própria existência e existimos para pensar.
Ignorando o pensamento ignoramos a existência e consequentemente somatizamos a parte de nós que não existe…sofremos. Entender o paradoxo é (será?) dar um sentido à vida, é residir na metáfora da própria existência e de repente tudo se torna aparentemente mais simples.
Deixem-me dizer que o prazer de pensar, o prazer de agir e prazer de transformar somatizam o bem-estar!
Manuel Parrinha
in, “Pertenço logo existo!”
05/04/2011
... melhor ?! ...
Podes perder tudo na vida... e regenerares-te... Menos um filho... isto NÂO!!!
Dizem que as perdas trazem sempre ganhos a acompanhar... que a dor nos faz crescer...
Dizem os que nunca perderam... só esses se atreveriam a falar de avanços, de ganho, de evolução na caminhada que te é destinada, com a perda de um ser em ti... isso NÃO!!!
É um marco mas não bom, uma viragem, mas do avesso, uma sentença imutável... uma pena irrevogável.
Para onde quer que vás depois disto, já não és tu... és tu, com e sem esse ser que te transformaria num ser maior sim, mas que se foi, e te estagna no mais pequeno grânulo de ti, inanimado, empobrecido ...
Em que é que essa dor te pode transformar numa pessoa melhor?
Sabes?! .... Claro que não... não podes!!!
E só julga que sabe, ou que assim o é, quem nunca perdeu!
Se um dia a pessoa que eu era há dias atrás voltar aqui... fujam todos, duvidem todos...
Essa, é quem morreu!!!
Essa, é quem morreu!!!
25/03/2011
...amo...
Você devia ter feito alguma coisa para me ter,ou me deter.
É fim de tarde. E, você sabe,
Eu te amava."
fernanda yong
24/03/2011
... o dilema ...
Se alguém precisa de uma nova oportunidade, dá-lhe esta oportunidade. Não permita que ninguém, fique com o coração triste, desesperado, sem esperança.
sei das angústias de uma mulher que está considerando a possibilidade de um aborto. Elas precisam de compaixão e não de condenação, não importando o que decidirem fazer. E se tomam a valente decisão de preservar a vida que está dentro delas, o sofrimento não acabou, está apenas começando. Elas precisam de ajuda para trazer esses filhos ao mundo e tentar juntar os cacos de sua própria história...
...
mulher que está lutando no vale da decisão, por favor, compreenda que Deus a ama apesar de seus erros. Ele tem um plano especial para a sua vida e para a vida desse nenê que está dentro de você. Levante a cabeça, acredite e Deus não a desapontará.
pr. alejandro bullón
23/03/2011
...sorrindo...
Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor.
tati b.
22/03/2011
...apego-te...
Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Não me limito, não sou cruel comigo!
Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer.
C. Lispector
17/03/2011
...saberás?...
Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.
Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.
Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem.
verónica h.
...isto...
Não importa quanto tempo passe, não importa onde eu esteja, não importa onde esteja você, abra os olhos pra dentro e ouça: o meu coração estará dizendo esta mesma prece de amor para o seu. Amor incondicional, exatamente como neste instante. Não importa o quanto a gente mude, o quanto a distância aparente nos afastar, isto que sinto por você, eu sei, não muda nunca mais.
ana jácome
14/03/2011
... indiferença tua ...
Não que tenha me faltado companhia, (que falta muito) mas em algum momento o abraço termina porque as pessoas têm as suas vidas (e tu não me queres na tua vida e isso doi tanto). E ainda, o barulho das cidades têm me incomodado tanto quanto este silêncio denso. Então eu fico sem saber pra onde ir. E fico tão sonolenta e encolhida no meu canto até que alguém venha me abraçar novamente. E às vezes esse socorro demora tanto por causa da minha necessidade sempre tão urgente de tudo. De paz. Por não querer sufocar ninguém, fico aqui, sufocada.
Só estou te dizendo estas coisas porque acho estranho você não ter a menor curiosidade em saber como tenho me sentido. Depois de tudo.
Porque não existe um segundo sequer em que eu não pense e queira saber e deseje que você esteja bem. Só isso.
marla de queiroz
12/03/2011
...lado bom...
...não te percas meu amor...
(...) tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto aquele abraço é o lado bom da vida. Da vida que te desemprega mesmo depois de tantas noites em claro e de tantos Beirutes indigestos. Da vida que te abre uma porta que você jura ser a certa, mas quando resolve entrar descobre duas crianças brincando na sala e uma mulher esperando no quarto. Da vida que te confunde tanto que você quer se afastar de tudo para entendê-la de fora. Da vida que te humilha tanto que você quer se ajoelhar numa igreja. Da vida que te emociona tanto que você não quer pensar. Da vida que te engana.
Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perde- lo.
Tati Bernardi
08/03/2011
... querer é poder ...
tu podes ser...
cruel é o não quereres...
tu tens amor pra dar, pra receber
pior é o ignorares...
tu podes ser a luz a alegria
ter a luz a alegria
podes ser tudo, ter tudo
tão triste é preferires não ser nada
não ter nada
tu podes ser a vida e ter a vida desse amor
e preferes matá-lo em ti e em mim...
não digas que não podes
não digas que não queres
o que tu queres, o que eu quero não existe
não existe amor sem dor
e se já conhecemos a dor
e se temos o amor
podemos escolher
e tendo alguém que te ama de corpo e alma
não entendo porque o não queres
como podes?
cruel é o não quereres...
tu tens amor pra dar, pra receber
pior é o ignorares...
tu podes ser a luz a alegria
ter a luz a alegria
podes ser tudo, ter tudo
tão triste é preferires não ser nada
não ter nada
tu podes ser a vida e ter a vida desse amor
e preferes matá-lo em ti e em mim...
não digas que não podes
não digas que não queres
o que tu queres, o que eu quero não existe
não existe amor sem dor
e se já conhecemos a dor
e se temos o amor
podemos escolher
e tendo alguém que te ama de corpo e alma
não entendo porque o não queres
como podes?
02/03/2011
...Por ti ... meu anjo...
Percorri todos os maus caminhos hoje... como tantos hojes me acontece... Passei por ti, e nem um olhar me prendeu... Desisti... finalmente o que tanto querias aconteceu... desisti... não de ti, não de nós... mas de mim!!!
Uma força estranhamente bruta me chamava pra si cruelmente... Andei... andei... de olhos baços.... andei... parei na falacha, depois no farol da baía... e o mar parecia tão mansinho lá em baixo, tão cheio de paz, que me atraía... Mais um cigarro numa convulsão de dor... e fugi desesperada.... acelerei de novo a fundo, e só parei noutro farol mais a norte... ali tão perto de onde nasci, onde sempre soube que queria morrer...
Uma força estranhamente bruta me chamava pra si cruelmente... Andei... andei... de olhos baços.... andei... parei na falacha, depois no farol da baía... e o mar parecia tão mansinho lá em baixo, tão cheio de paz, que me atraía... Mais um cigarro numa convulsão de dor... e fugi desesperada.... acelerei de novo a fundo, e só parei noutro farol mais a norte... ali tão perto de onde nasci, onde sempre soube que queria morrer...
Vi a tua expressão, tão decepcionada comigo, e o pranto tomou conta de mim... Vi a expressão do meu filho, tão meigo e doce comigo, que caí... Virei as costas ao mar... ao abismo que me gritava para me entregar...!
A noite já me tinha avisado... Estava tão perto do quase que, sem saber, na madrugada, gritei... não sei se de dor, se de liberdade... Não queria a morte, nunca quis, mas tornou-se inevitável... Tal como se tornou insuportável permanecer.
Sonhei que o mar me abraçava fortemente... e agitei-me....gelei momentaneamente. Mas não doía, não mais chorava...não mais te chamava... Mas... o meu amor pequenino ouviu o meu coração... e ali estava ele debruçado sobre mim ... Eu soluçava, e o meu anjo Rafael acordou para me abraçar...Voltei quando o ouvi:
- Mãe, mãe ... Não chores mais... eu estou aqui!!!
Obrigado meu anjo por existires... por mais uma vez me fazeres continuar... Sei que não podes dizer-me que vai correr tudo bem... mas também sei que és o único amor, que nunca me vai abandonar...
22/02/2011
...preciso da tua voz...
sabes como preciso da tua voz?
é como o chilrrear de um passarinho
faz-me sentir a primavera em nós
(...)
o teu calar, teu não cantar
tira-me o ninho
deixa-me sem chão
sem céu para te amar
da malu
para o cazé
12/02/2011
... voltei ...
Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Rogério Martins Simões,
in "voltei"
31/01/2011
...verdade...
"O amor pela verdade pode temporariamente custar caro a quem o exercita. Mas a verdade acaba por triunfar da mentira. A política da mentira está condenada à derrota final. É à política da verdade que o futuro pertence."
Álvaro Cunhal,
in O Partido Com Paredes de Vidro
30/01/2011
... será ? ...
O actor acaba por não deixar de pensar na impressão causada pela sua pessoa e no efeito cénico total, até por ocasião da mais profunda mágoa, por exemplo, mesmo no enterro do seu filho; chorará ante o seu próprio desgosto e respectivas exteriorizações como sendo o seu próprio espectador. O hipócrita, que desempenha sempre um mesmo papel, acaba por deixar de ser hipócrita; por exemplo, sacerdotes, que, enquanto homens novos, são habitualmente, de modo consciente ou inconsciente, hipócritas, por fim tornam-se naturais e são, então, realmente, sem qualquer simulação, mesmo sacerdotes; ou se o pai não consegue lá chegar, então, talvez, o filho, que se serve do avanço do pai e herda a sua habituação. Se uma pessoa quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, consegue-o pois acaba por se lhe tornar difícil ser qualquer outra coisa. A profissão de quase toda a gente, até do artista, começa com hipocrisia, com uma imitação a partir do exterior, com um copiar de aquilo que é eficaz. Aquele, que traz sempre a máscara das expressões fisionómicas amistosas, tem de acabar por adquirir poder sobre as disposições anímicas benévolas, sem as quais não é possível forçar a expressão da afabilidade - e, finalmente, por seu turno adquirem estas poder sobre ele: ele é amistoso.
Friedrich Nietzsche,
in 'Humano, Demasiado Humano'
... a asa certa ...
Qualquer coisa tem duas asas: uma que nos permite a levemos connosco, a outra que tal intenção não nos facilita. Se o teu irmão tem mau feitio, não o chames a ti levando a mão à asa que se manifesta de modo errado. Por aí, é-te impossível levar a bom termo o teu propósito. Toma-o antes pela asa boa, pela mão que se não recusa à tua mão - e se te lembrares que ele é teu irmão, que foi amamentado contigo, logo verás que o podes chamar a ti.
Epicteto,
in 'Manual'
28/01/2011
... sendo...
"A gente pode até se vingar de toda a chatice,
a grossura,
a crueldade e angústia,
sendo feliz."
Lya Luft
25/01/2011
...descobre as diferenças...
Há uma grande diferença entre amar e estar apegado: o amor nos dá aquele sentimento de liberdade, enquanto que o apego nos aprisiona e pensamos que as pessoas devem agir da forma que queremos. O amor é livre! Quando estou apegado a alguém ou a alguma realidade, eu faço do outro meu escravo.
Pe Fabio de Melo
23/01/2011
...não sei...
será que adoecerias de me sentir doente?
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
06/01/2011
...fala da mulher sozinha...
Já estou farta de estar só, acompanhada de nada, já estou louca de ser rua, tão corrida tão pisada já estou prenha de amizade, tão barriga de saudade. Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão, e nela entrelaçar o olhar de uma canção, chegar ao cume, ao cimo, ao alto, mais longe e mais além, mas a saber que sou alguém. Na cidade sou loucura, sou begónia sou ciúme, e eu que sonhava ser rua, caminho atalho lonjura, não tenho assento na festa, sou a migalha que resta.
paco bandeira
08/12/2010
24/11/2010
entender pelo sentir
Uma verdade só o é quando sentida - não quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.
Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não - e de que serve reconhecê-lo ou não? - como centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.
Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discussão não nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de nós, a profundeza das nossas sombras profundas.
Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias é necessário que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando isso que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro quantas vezes entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem ainda na exterioridade de nós a plausibilidade do que em nós já não é plausível. Então nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos serviríamos e já não serve. Surpresos olhamos quem fomos porque já nos não reconhecemos.
Atónitos perguntamos como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, ao incrível da cilada que nós próprios nos armámos, mesmo quando foi a vida que a armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e real quando abre em evidência na profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está?
Vergílio Ferreira, in
'Invocação ao Meu Corpo'
11/11/2010
...dizer...
«é tão breve o silêncio quando dizer mais era urgente,
tão frágil o fogo das mãos sobre a pele,
tão lúcido o pensamento quando dizer tudo é pouco.»
isabel mendes ferreira
08/11/2010
... um sentido para a vida ...
Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer.
A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) - é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.
Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.
Raul Brandão, in " Se Tivesse de Recomeçar a Vida "
"Só Sente Ansiedade pelo Futuro aquele cujo Presente é Vazio"
O principal defeito da vida é ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar.
Quem, todavia, quotidianamente der à própria vida "os últimos retoques" nunca se queixará de falta de tempo; em contrapartida, é da falta de tempo que provém o temor e o desejo do futuro, o que só serve para corroer a alma.
Não há mais miserável situação do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o espírito inquieto debate-se com o inelutável receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? Há um apenas: que a nossa vida não se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma.
Só sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente é vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu espírito, em perfeito equilíbrio, souber que me é indiferente viver um dia ou viver um século, então poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que espécie de perturbação nos poderá causar a variedade e instabilidade da vida humana se nós estivermos firmes perante a instabilidade?
Apressa-te a viver, caro Lucílio, imagina que cada dia é uma vida completa. Quem formou assim o seu carácter, quem quotidianamente viveu uma vida completa, pode gozar de segurança; para quem vive de esperanças, pelo contrário, mesmo o dia seguinte lhe escapa, e depois vem a avidez de viver e o medo de morrer, medo desgraçado, e que mais não faz do que desgraçar tudo.
Quem, todavia, quotidianamente der à própria vida "os últimos retoques" nunca se queixará de falta de tempo; em contrapartida, é da falta de tempo que provém o temor e o desejo do futuro, o que só serve para corroer a alma.
Não há mais miserável situação do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o espírito inquieto debate-se com o inelutável receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? Há um apenas: que a nossa vida não se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma.
Só sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente é vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu espírito, em perfeito equilíbrio, souber que me é indiferente viver um dia ou viver um século, então poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que espécie de perturbação nos poderá causar a variedade e instabilidade da vida humana se nós estivermos firmes perante a instabilidade?
Apressa-te a viver, caro Lucílio, imagina que cada dia é uma vida completa. Quem formou assim o seu carácter, quem quotidianamente viveu uma vida completa, pode gozar de segurança; para quem vive de esperanças, pelo contrário, mesmo o dia seguinte lhe escapa, e depois vem a avidez de viver e o medo de morrer, medo desgraçado, e que mais não faz do que desgraçar tudo.
Séneca, in
'Cartas a Lucílio'
26/10/2010
... amor: matéria: vida ...
«Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio.»
Inês Pedrosa in
"Fazes-me Falta"
15/10/2010
...matas-me...
matas-me com o teu olhar
Noites frias de marfim, noites frias ao luar, a conversa já no fim... matas-me com o teu olhar... Sabes que esta vida corre, como a sombra pelo chão, nada fica, tudo foge, ouve a voz do coração... matas-me com o teu olhar... São como cubos de gelo, que eu sinto ao tocar, as palavras têm medo, matas-me com o teu olhar...
uhf
11/10/2010
...à luz do silêncio...
quero-te a ti ... " tan tan tan "
Não quero memórias passadas
Águas levadas
Em rios já mortos
Não quero histórias contadas
De reis e de fadas
Em fins inglórios
Não quero horas marcadas
Nem prendas caras
Em dias de festa
Não quero formas erradas
Nem beijos nem facas
Na ferida aberta
Não quero amor ao minuto
Nem ódio eterno
Não quero o tempo indefinido e diminuto
Entre o Outono e o Inverno
Não quero abraços encolhidos
Nem sonhos perdidos
De alguém que acordou
Não quero choros escolhidos
Em mares perdidos
Que alguém nem tocou
Não quero a estreia da mentira
Nem o final da verdade
Não quero o sindroma da vida
Que embala a saudade
Não quero que me queiram nunca
Se um dia puderem não me querer
Não quero sentir qualquer morte
Sem poder morrer
Não quero
Tudo o que me quer assim
Como apontamento numa agenda
Quero a liberdade dos sentidos
Sem segundos contidos
Sem limite que me prenda
Faça-se silêncio
Entre a inércia e o acto!!!
Que eu tenho com o tempo um pacto
Onde, nem um, nem outro pode existir
Faça-se silêncio
Ouçam-me, sentir!!!
08/10/2010
... dias de chuva ...
Sempre gostei dos dias de chuva que aparecem inesperadamente no meio do Verão. Aquela sensação de frio que nos confirma que havemos sempre de precisar do conforto de um abraço. Até porque os "Verões" acabam sempre.
Gosto do cheiro da terra molhada, da forma como a água se torna parte integrante da realidade à nossa volta, e nos obriga a olhar de maneira diferente para as coisas de todos os dias.
Gosto do som do eco da água que me chega. Identifico-me com ela, porque a imagino perdida, desencontrada de si, sem perceber o que lhe compete mais fazer aqui para além de se abandonar a esta queda inevitável e contínua...
Também eu me sinto perdida em dias assim. À espera de compreender melhor porque é que também eu me abandono à queda.
... não desistas ...
A luz da manhã e o teu corpo por dentro... E a pele na pele de quem se quer tanto
Não tenho mais segredos... Escondi-me nos teus dedos... Somos metades iguais
Mas hoje só hoje... Leva-me para onde vais... Que eu quero dizer-te:
Não desistas de mim...
Não te percas agora...
Não desistas de mim...
A noite ainda demora...
07/10/2010
... esta paz ...
... "Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser." ...
Fernando Pessoa
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser." ...
Fernando Pessoa
28/09/2010
... a canoa ...
“Se um homem estiver atravessando um rio, e uma canoa vazia bater em seu barco, ele não ficará com raiva. Mas se ele avistar alguém na canoa, irá gritar para que desvie sua rota. Se a pessoa não o escuta, grita novamente, fica com raiva, diz palavrões. Faz tudo para evitar o desastre. Se a canoa estivesse vazia, este homem não estaria berrando, nem estaria com raiva. Portanto, saiba que irritar alguém de vez em quando, significa mostrar que você está vivo, e no leme do seu destino. Significa, sobretudo, que os homens notam a sua presença, e tentam se comunicar com você."
Chuang Tzu
23/09/2010
...solitária?!...
O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.
Miguel de Unamuno, in 'Solidão'
05/09/2010
...O entendimento das almas ...
As almas têm um modo especial de se entenderem, de entrarem em intimidade, de se tratarem, até, por tu, enquanto as pessoas ainda se sentem embaraçadas com o comércio das palavras, na escravidão das exigências sociais. As almas têm necessidades próprias e aspirações próprias, que o corpo finge não reconhecer quando se vê impossibilitado de as satisfazer a de as traduzir em acções. E de todas as vezes que duas pessoas comunicam entre si desta maneira, apenas como almas, se encontram a sós num qualquer lugar, experimentam uma perturbação angustiosa e quase um repúdio violento de todo e qualquer contacto material, um sofrimento que os afasta e que cessa de imediato logo que intervém uma terceira pessoa. Então, desvanecida a angústia, as duas almas aliviadas buscam-se reciprocamente e voltam a sorrir uma para a outra.
Luigi Pirandello , in '
O Falecido Mattias Pascal'
04/09/2010
... não importa ...
William Shakespeare
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